Mapas de Espelho – Para que não inventassem que dizia

para que não inventassem que dizia

 

Revoltou-se na ferida devolvida no confundir do lençol, com o arrojo da indiferença lançou-se
na arena: alucinava;
Seduzida na sua fúria rompia vermelha viva a carne, oxidado simula em cada ímpeto a afectação
a opaca razão arremessada na contracção do corpo e lastima a secreta ânsia do seu proveito.
Na ébria desidratação alucina sob um aplauso ultrajado,
só, para que não inventassem, a convulsão do tempo, que dizia.

 

Anúncios
Publicado em Mapas de Espelho | Etiquetas , , , , , , | 2 Comentários

Mapas de Espelho – Nada se disse – como quase nada

nada se disse – como quase nada

 

Arrojou-se até ao umbral – nada se disse – arranjou os olhos, preparou-os, incutiu-lhes a apetência,
o apetite, a aparência – nada se disse – olhou para o umbral: apartou-se do coração, saiu do alcance
do umbral e foi, por aí, pela terra alcatroada – disse para os olhos: turistas, turistas nesta noite; sai, sai – como quase nada –
abriu todo o corpo: os olhos, a terra alcatroada –  nada se disse – voltou para dentro dos passos, empalideceu; alternou
dentro dos olhos as presenças arranjadas: dispo-las, supôs a festa abeirando-se – nada se disse – alvoraçado no
dilaceramento olhou: agora o tolhimento até aos ossos,
suspendeu os olhos – como quase nada – sabia a boca rasgada
e rasgaria uma a uma as faces: “qual delas queres” “vá despacha-te” “o coração que trago – trago-o num só trago todas as
noites – é sempre o mesmo” ” não, não me perco – os olhos – esses atravessam
os ribeiros a galope; os lagos são para olhar através dos olhos dos outros: criam-se e querem-se no lodo”
” vá tolhe a face” – nada se disse – encastrou-se ao corpo, enroscou-se, viu o coração acabado, fez saltar os olhos – como
quase nada – mostrou os dentes, agora, postiços, eram um enfeite, noite, noite,
 – nada se disse – o umbral ( pensou),
regressou com os olhos embrulhados, a terra alcatroada, turistas, turistas, noite, esse poço
dentro do corpo ­­– como quase nada – tropeçou nos olhos, o roseiral,
pétala a pétala viu tudo:
o corpo seco, a casaca de rosas – nada se disse –
vestiu-se desse corpo como o de uma pétala, encarquilhou os olhos nele, ( pensou) umbral – nada se disse – obscurecido o
coração – como quase nada – desconfiou dele.

 

Publicado em Mapas de Espelho | Etiquetas , , , , | 5 Comentários

Mapas de Espelho – É preciso dizê-lo

é preciso dizê-lo

 

Uma vez mais a rua abria-se, a cor, essa, condescendia no volteio, durante os olhos estultos alargando
a satisfação, a visão, essa deriva rápida a entrar em cada coisa, é preciso dizê-lo;
outra vez fez estender o corpo, o seu e o da rua, prolongados, agregando – cada um – uma a uma
as contusões em uníssono, é preciso dizê-lo;
por várias e únicas ocasiões roubavam-se à surdina, por pura disposição, encorpando sempre
qualquer coisa atmosférica do ar de uma da outra, é preciso dizê-lo;
cada uma em qualquer motivação, quando se passeavam uma pela outra, rebuscavam-se, faltava sempre alguma coisa nas
suas entranhas, uma agonia ou uma falha por onde se tivesse encravado um sofrimento fraco demais para a convivência uma
da outra, é preciso dizê-lo;
várias e unas as muitas variações dos seus corpos sobrepondo-se, curvando-se na arquitectura reconstruída por uma e por
outra na outra, é preciso dizê-lo;

 

 

 

Publicado em Mapas de Espelho | Etiquetas , , , , , | Publicar um comentário

Mapas de Espelho – Dizes, agora, só para ti

dizes, agora, só para ti

 

Ela detonava os olhos no mármore, dominada atrevia o seu coração a depositar-se nele até um dia perder:
a sua revolta e o mármore desaparecer sob a sua noite encastrada à revelia. O calcário absorvia tudo e todo o seu calvário se
lhe iluminava: todas as manhãs ia depositar a sua vida e recolher-se noutra
branca certeza que lhe revigorava a febre mansa, dizes, agora, só para ti.
Treinado no silêncio o seu coração embranquecia, e tu vagueavas por entre: essas moradas brancas silenciosas, sem saber
que treinavas o coração para a brancura e um dia terias essa febre sustendo-te
– sob os olhos –
outra infância, dizes, agora, só para ti.

 

Publicado em Mapas de Espelho | Etiquetas , , , , , , , | Publicar um comentário

Mapas de Espelho – Como se se dissesse

como se se dissesse

 

A glória começa e acaba em cada corpo, a inocência alcança o limite da lâmina nos seus destroços,
como se se dissesse: moinho de velas em foice nas veias da vontade vã;
como se um capricho fosse: começar e acabar certo dentro de si centrado ou desorbitado no humano sem sinónimo.

 

Publicado em Mapas de Espelho, Uncategorized | Etiquetas , , , , | 1 Comentário

Mapas de Espelho – Dizes

dizes

 

Como se desfaz a respiração nos rostos: alongando ao ébano das máscaras o desperdício, dizes,
na evidência há (quando olhas) um ímpeto suicida, desferindo com emoção um dardo lanças
na derradeira verdade dos corpos a repetição, dizes;
e as máscaras confundem-se no fôlego das faces sôfregas, violentando a pulsão
os mortos concedem-te um verso, consagrando a tragédia óssea, e a carne teima prisioneira o improviso, não foge, dizes.

 

São lâminas magníficas os olhos e abrindo a boca duplicas todas as coisas doentes e no fastio,
que não cuidas, constróis uma jangada e cospes a fome, essa certa ignorância que atravessa os corpos e, dizes, quando
ninguém te escuta: são rápidas as mortalhas enfaixando nos olhos o incêndio.

 

Não adianta partir com gestos decepados ou fazer uma festa se não celebras as ravinas cansadas da raiva
e o depois é uma parábola de cinza, faz ulcerar, onde se traz vivo o coração,
a água ou o cinturão de lume – o que viola o corpo de desejos, dizes;
e o corpo é de cinza quando deseja o amor que faz: não abre girassóis nem conhece saindo do lodo
outro corpo: deixa-te preso aos músculos a respiração do moribundo
e os olhos crestam com esse abalo, dizes, supões atenuar a dor e sem poderes
perpetuas um intruso golpe, e, tal como a lua não volta a face,
um presente convulsivo abrevia a sua glória.

 

Publicado em Mapas de Espelho, Uncategorized | Etiquetas , , , , , , | Publicar um comentário

Coro

“Mãos de mulheres, cheias de ternura,
cozinharam seus filhos,
que lhes servirão de alimento,
quando da ruína da filha do meu Povo.”
Bíblia. Livro das Lamentações, Job,

 

«O que é um homem bom?»
O que é um homem bom?, penso e pergunto-te
sem medo da palavra que não trova com o mundo,
de quando em vez, acosso-te: «O que é um homem bom?»
novamente assomo sem pudor de te perturbar ainda; vivo assim:
sem medo da tua pele tão à beira de mim, sem me retrair nos olhos
e fico de borco desejando despenhadeiro – tua voz – essa vida com sotaque vigilante
e se a minha palavra se abeirasse dos teus olhos
não sei se seria um lago, neve, iogurte dentro do prazo, a leve vida,
ou Elisa cantando: Tanzânia, T-a-n-z-â-n-i-a, T-a-n-z-â-n-i-a,/
T-a-n-z-â-n-i-a 
sem adivinhar um punhal
levando a morte ao seu corpo;
sei, talvez, que essa palavra seria sempre um objecto secundário,
um acessório de uma memória suja, demente ou ambição de vertigem
face de um fragmento rudimentar com que irias à procura
de qualquer coisa que te lembrasse
que não existe diz-que-diz-que na solidão
essa pele que absorve a fundo a noite
outra vez vem ter comigo, imploro!
acossa de relance – nos meus olhos – a tua mão, par
da mão que desossa com o cutelo os ossos, toca piano,
mão engatilhando, levando a extinção na sua força, fixando
os corpos no seu tempo “ A guerra foi à duas semanas”, diz o homem
com as duas mãos no volante O que é um homem bom?, vacilo
a mão de Sacha nas mãos
da mãe de Sacha; os olhos das mães crescendo
como a tensão nas mãos da mãe de Sacha
tanta face de lume! quando pensas noutro humano
tão impartilhável como é para mim o teu corpo de remendos,
depois vêm as palavras que seguram
o homem empoleirado, podando a preceito os ramos
de árvores russas, isso, as árvores eram russas,
as copas das árvores russas, a cidade ao fundo,
um enquadramento, um plano, tal como o plano do rosto de infância a ser enterreado
na improvisada vala comum,
a areia tapando o rosto infantil de olhos abertos,
os corpos amontoados na carrinha de caixa aberta,
mas esse relâmpago em câmara-lenta — a última imagem — os olhos abertos/
o bebé, e outras palavras juntam-se a ti: manga-curta manga-comprida
porco-preto porco-branco
« o porco-preto é mais difícil de conseguir, corre mais»
e os corpos arrojados até à porta da embaixada
as copas das árvores russas, os sacos entrançados, a rua, o gato, o branco
a cultura do açafrão, Maria, a campa da Maria, as mãos da Maria
separando as lágrimas do rosto, para se sentir mais na morte do filho,
o filho da Maria a galope do cavalo entrando pelo lago num dia de verão
russo, a aldeia russa da Maria, o marido russo da Maria e a nova mulher russa 
a Maria entrando terra adentro com as suas mãos respirando a força do sol,
a comoção do realizador com a morte e campa da Maria, com as palavras da filha de Maria,
a Maria fixando-se palavra viril – o que é um homem bom? pergunto-te agora? procuro-te
e ficas a pensar na possibilidade do nome das coisas, das tuas coisas quotidianas, tão a jeito e próximas da
tua indiferença,
« o porco-preto é mais difícil de conseguir, corre mais»

 

[continua]
Publicado em Coro | Etiquetas , , , , , , , , , , , , , , , , | Publicar um comentário