Respigar – O que foi que eu fiz ao dizer

No, no. Yo no pergunto, yo deseo.
                               Lorca

 

O que foi que eu fiz ao dizer:

 

quando não souberes a escuridão
corre por entre o vinho e procura
as suas bagas e depois o sol
e depois sacia, só então, o apelo
do corpo que adormece;

 

traga toda a água que constrói
outra forma de queimar sublime
a repulsa do mundo no remorso;

 

só, depois, faz renascer o enternecimento,
a corda, as cordas que te acordaram
embrulhados pesadelos
na convulsão

 

obscurece os claros olhos que me guardas.

 

¡Oh, sí! Yo quiero! ¡Amor, amor! Dejadme.
Lorca
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Respigar – O que foi que eu fiz ao imprevisto

No, no. Yo no pergunto, yo deseo.
                               Lorca

 

O que foi que eu fiz ao imprevisto

 

bailarina não existe
dança a embriaguez no terror da melodia

 

soldado não existe
enlouquece o deserto no território da pátria,

 

o eclipse, o vento, o meio-dia: as asas
saem feridas

 

bailarina não existes e nas tuas costas
a noite é para sempre:

 

intenso soldado
penhorando a lágrima
por este agora;

 

improvisa soldado o imprevisto
em bala,
nos meus lábios desembaraço
a sepultura do teu corpo

 

improvisa bailarina o imprevisto
embala,
no elíptico peso de brilho e treva
o coração decanta isto e aquilo

 

bailarina que eu seja
no palco o simulacro
o passo, as pálpebras do soldado

 

bailarina fecunda o soldado
que traz a paz deslumbrada
oh! soldado ferido
a bailarina não existe

 

só, dança na minha boca
a dor que não existe
e o imprevisto prazo
contrafeito do ritual orgânico

 

traz aberto o lagar onde banhas
as tuas feridas sempre abertas
nas vastas dimensões dos teus olhos

 

– limpos quando caiem –

 

sempre num lado escuro
vencendo, bruscamente,
imprevistos solos

 

agradecendo, retrai o medo,
esse que consentes
escurecido no verso que abandonas:

 

à beira do crepúsculo de todas as mortes

 

antecipa a brutalidade
que desprendes nos lábios,
os apavorados humanamente

 

e liga à divisão das terras o interno
espaço medrando o cessar,
o negro tempo

 

multiplica fábula.

 

[Continua]
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Respigar – O que foi que eu fiz noite

No, no. Yo no pergunto, yo deseo.
                               Lorca

 

O que foi que eu fiz noite

 

cobarde ou funâmbulo equilibra
óbvias parábolas face à flor de carne
abrindo morte, e entrega à sombra
das suas pétalas a tenra sede
até ao travo amargo da sua glória,

 

e mostra aberta cada ferida secando

 

sob o sol soletra:
só tu sobrevives à solene solitude,
dentro do golpe – aberto e limpo –
só tu saberás o poder;

 

e vence em cada nome o perfil
da sombra que te persegue
familiarmente quando desejas
o centro das searas prosperando
violentos animais ou continentes
onde emparedas a tua fome:

 

a que desejas devolver
aos escolhos da solidão

 

desdobra nas lágrimas – as que sobraram –
os guias siderais da vocação limpa
voando a baixo do limite das águas,

 

e reinventa outra ilha no som baixo,
próximo e silencioso,
contra a singular paleta onde te ocultas:

 

outra vez, diz:
agora, aqui, vais ter o vencido
amor da terra, humanamente, observa:
anoitece crisálida a tremenda igualdade,
o sopro, os passos, a lama do tempo sustendo
como vampiros reais jogos de infância
maltratada, agora, aqui, outra vez, só a carne
ou o contínuo sangue insinua a tremenda igualdade,
a incondicionada infâmia ou se preferires
a noite eterna fecha-se fustigada pelo temor
agora, só aqui, outrora, matas tanto como agora
sob a unânime lâmina inconvencional da luz
 
marejando os olhos: justo, justo, era voltamos
todos outra vez, agora, restos de outrora

 

[Continua]
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Respigar – O que foi que eu fiz só

No, no. Yo no pergunto, yo deseo.
Lorca

 

O que foi que eu fiz só

 

não querer escurecer em ninguém
foice que se desprende

 

não querer tolher tudo ao ver
o brio da avara luz

 

não querer cândida a dor
sob o chão de áspero anzol

 

não querer senão, a nuvem
a dentada na maçã
ser-te, ser-te …

 

ao amar finge ser-me

 

e faz do doméstico sol um companheiro
cansativo, robusto embuste soletrado
o presente que te assenta
película ou  incêndio

 

e nos dias de chuva ( o que não digo
veste-te livro que não se leu ),
adivinhando pensa fazer de conta
que só desperdiço tempo com fastio:

 

o talher sobre o prato, a tv. que se desliga e liga
ao ritmo de mudar os limites deste trânsito, 
mensurável até não ser mais
do que puro sono
e tudo humanamente, familiar,
entra noutro quarto,

 

em todos os quartos:
humanos deitados (à beira do morto),
excitando nas órbitas
a meteorologia de tanta coisa impossível
                                     de se pressentir quotidiano 

 

[Continua]
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Respigar – O que foi que eu fiz por dentro

No, no. Yo no pergunto, yo deseo.
                                                   Lorca

 

O que foi que eu fiz por dentro
não, não, sou a duração e a falta
duplico-te em suor e em pasmo

 

e nem cavalo de touro,
só areia no fôlego de tigres

 

nem sol atado ao útero,
só umbigo alegríssimo pelo seu feito

 

nem consolo de beleza,
só reflexo de olhos crestando sob o campo de papoilas

 

oca duração a falta
respigar dias. de restos
o eco

 

no pulso o pulsar da carne
agarrando o sair da noite
densa e presa ao apreço da invenção

 

só a primeira ginja da primavera amarga
só a água e o desejo das estrelas ferem:

 

e redige sem lágrimas uma canção sem poder
– só se puderes – só se não consentires
os meus ombros nos teus olhos limpos:
revejo
a rejeição do tempo

 

o inóspito desassossego cego
– o comum lugar –
vedando as máscaras:
portas fretadas para o tempo perecível
independente galvanizando

 

[Continua]
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Respigar – O que foi que eu fiz ao olhar esse dia

No, no. Yo no pergunto, yo deseo.
 Lorca

 

O que foi que eu fiz ao olhar esse dia:

 

atira os olhos para longe,
a terra fecha na língua
as invariáveis declinações do pudor;

 

como se tivesse existido sempre,
a inadiável tempestade que te dá generosa chuva,
quando já nada no deserto te inventa a rosa 
e a erosão de sangue, no teu corpo quotidiano,
te excluiu essa vontade, que só agora
a entendes, corrosão de um pacto:

 

sol, lua e tempo
neste espaço continua o mecânico:
rosto, crânio e corpo;

 

árvore de medo, do tempo
nas suas flores preparando-nos o fruto
– esse – quando o saboreamos:
ilha de espanto revelando-nos
a popular cerejeira do mundo;

 

em transe desconhece
o que dizes aqui,
na minha boca

 

abre de espuma o sol,
quando o que se quer é mesmo empunhar,
ter na mão o sangue da operação,
ou um ser que respire
e que só abra os olhos para nos reclamar
o cirúrgico silêncio,

 

e a minha boca abre, arremessa
o tumultuo do mundo que entrou:

 

“esta foi uma das primeiras noites”

 

oh, meu amor-horror, de tantas noites,
como quero dizer:

 

agora

 

pesa
as coisas reservadas
a serem abertas,
aí fendes.
[Continua] 
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Respigar – O que foi que eu fiz amar: dilacera

No, no. Yo no pergunto, yo deseo.
 Lorca

 

                            

O que foi que eu fiz amar: dilacera
lábio visível de cada uma das palavras

 

num resto de voz: mente-me
sob o rumor da amizade
o chilrear dos pássaros de visita
à intermitente primavera
ou nas cidades o acervo
nos rumos da corrupção dos corpos
ou das mágoas o vigor soçobra
– em cada madrugada –
repasto de crueldade,

 

mas mente-me, diz-me que não é isto,
mesmo aqui, uma mina que deflagra

 

que vai dar eternidade, que o céu já foi

 

um fragmento recolhido por quem sabia
da violência, violentamente, o ferir das asas

 

ou se não te deseja-se
( sob este agraço que, porém, não mata ),
mentiria outra vez,

 

mas fica papel, por exemplo: o restolho das palavras,
o amor, horror – amor indefinidamente –,

 

como se fosse de volta
ou como te diria:
ao revés, desfaz o sol
do seu monopólio;

 

vá, vem sem sombra e lembra
a escuridão do corpo no desejo
e dança até desapossado
o riso desprezar a sua fonte;

 

na contenda, o trampolim do dia estende
o rigor dos corpos em desejo pronto
para outro vazio de dentes diligentes;

 

e abre o silêncio, o impossível,
o insustentável gerecer das fábulas
e acompanha uma a uma as bagas
dependentes da febre que curva
o corpo numa dimensão sedenta;

 

e sem reservas no litoral de cada noite,
a pele, a de cada golpe é arena

 

mais profunda sentindo
a duração dos olhos
– os apropriados –
aqueles que rendem o próprio vazio,
a dormência dos espaços
nos seus nós e sentidos,

 

e agudas vertigens subvertem
a enigmática árvore do tempo.
[Continua … ]
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