Primeiro Corpo ~ Veios

22.


Esse homem construiu uma jaula
e colocou dentro dela uma flor,
a primavera e a chuva e depois
sentiu ciúme e medo e abandonou-se.
Depois compreendeu
que tudo era desconhecido
e imprevisto e declarou:
existia o amor.
E por entre o espanto
partiu,
levando as grades com ele.
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Primeiro Corpo ~ Veios

21.


Vou andar por aí abismo,
procuro o jovem negro
que arrefece o coração
com a sua frieza destruidora
e resplandecente nas madrugadas,
magoado erguerei as minhas mãos
mergulhadas na cal do seu peito
e baixarei os olhos – decalco
a imagem negra aterradora
no lixo que vou guardando
para o esquecimento.

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Primeiro Corpo ~ Veios

20.


Essa mulher deu-me um nome
que é só dela e contagiou-me
pedra.
Angular no seu deserto,
plantou-me cacto que vai cuidando
– quando a monção se volta para dentro,
escada em espiral – e tolhida   silenciosamente
essa mulher intensa ruína onda-fóssil
verga a espera, perturbando-se outra
no compasso de pedra cacto dela.
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Primeiro Corpo ~ Veios

19.
Separando a chuva do terreno fértil,
o arado rasga outra dimensão
incomensurável           obscura.
Na sua inclinação interdita,
derrapando no abismo
à mercê do promontório,
e na bifurcação há um caminho
percorrido
outro sofrido no cansaço,
voltando sempre na suspensão,
mil navios imergindo no naufrágio.
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Primeiro Corpo ~ Veios

18.


No retrocesso avista-se uma clareira,
e um homem caminha sobre roldanas,
já não tem onde colocar o afecto.
Os seus olhos são duas paredes
retorcendo-se no seu retrocesso,
e na clareira está o centro de tudo:
o que não quis. Retorcendo-se
– à espera – os passos,
o homem contaminado
foge temeroso, arrastando-se
nos aguilhões da sua respiração.

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Primeiro Corpo ~ Veios

17.


Há um homem que devora
o coração à luz das velas
sem saber a posição do compasso
ou dos mortos no sinal da cruz,
ou que bilhete serve de adereço ao relato,
devasta-se
sabiamente
enquanto arrefece a escuridão
– o turbilhão dos corvos em debanda –
sob inventário dos veios das sombras, das velas,
o infantário da sua infância, a lancheira de cerejas


Errando o dardo        o retrato
o homem é feitiço feito tempo
perdendo-se aqui além para além das forças
construindo gárgulas nos laços das noites doentes
sabiamente


Sem saber que um lençol de água
resiste à sua sede morrendo
ali além aquém formando
pântano
o homem        sabiamente
doendo aí
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Primeiro Corpo ~ Veios

16.


Hoje vou dormir com um machado
dentro da boca
até tornar irreprimíveis os cais.


Embarco, sem cantar, e vou recordar:
há espinhos percorrendo o caule
e no raiar arborescem pequenas liturgias,
ao inverso da fome cortando
nos olhos a imagem do verbasco, quando
no monte da forca a bruma
vencia, na esfera dos proscritos,
o brilho
resplandecente de uma visão de Iaco.

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